domingo, 7 de fevereiro de 2021

Memórias - A infância no sítio dos avós maternos



Difícil lembrar quando nossa história começa... De quando nascemos até os três anos, pouca coisa lembramos. Vamos nos baseando pelo que nossos pais contam, então vamos lá... Meus pais nasceram e viveram a infância e juventude em sítios vizinhos, na cidade de Tietê. A família de minha mãe eram "gente" dos Tezoto; a família de meu pai, "gente" dos Toaliari.
Na infância, eu passava as férias de julho e dezembro no sítio Pirapora, de meus avós maternos, Sebastião Tezoto e Amélia Bizim. Minha bisavó, a nona Cândida Pizol Tezoto, morava junto e também meu tio Candinho, irmão da minha mãe, casado com a tia Mariquinha, irmã de meu pai. Ficava tudo em família... E tinha as irmãs solteiras, tia Inês e tia Alaíde. 
E a cada férias passada no sítio, a família de meu tio Candinho ía aumentando e chegando meus primos irmãos: Reginaldo, Rosana, Ronaldo, Rosângela. Bem depois vieram o Cassiano e a Daiana, mas nesta época eu já era adolescente e não passava mais as férias no sítio. 
Além de mim, na mesma época, meus irmãos Sônia e Rosevaldo também passavam as férias no sítio. Minha irmã Maria Inês, mais velha, e a Roberta, mais nova, passavam as férias no sítio em épocas diferentes. Era uma criançada só. Quantas brincadeiras... As meninas brincavam de casinha embaixo das árvores e os meninos tentavam caçar passarinhos com seus estilingues. 
Na hora do almoço e do jantar, sentávamos todos numa mesa comprida, à espera da comida que tia Mariquinha preparava no fogão à lenha. E íamos pedindo:
-Tia, quero meu ovo bem frito, dizia um.
- O meu com a gema estalada, dizia outro...
E depois as meninas, de 8 a 12 anos,  ajudavam a lavar a louça. Fosse hoje, haveria briga, afinal porquê os meninos não ajudavam? Mas naquele tempo era assim, as tarefas da casa era obrigação das meninas e os meninos ajudavam o vô a carpir o pomar.
As férias eram brincar, brincar, brincar. Claro que tínhamos as obrigações, de manhã minha avó nos chamava às 6:30 h, fizesse calor ou frio. Depois do café da manhã - bolo e leite com café tomado em tigelas, varríamos e tirávamos pó dos móveis da sala. Depois sim, brincar nas goiabeiras, fazer piquenique perto da nascente de água, explorar o valinho, que era uma estradinha paralela à estrada de terra que passava na frente do sítio. Já adulta, vi uma reportagem sobre uns caminhos que os povos antigos usavam e cheguei a conclusão que esse valinho era uma estrada utilizada na antiguidade. 
E assim passavam as férias. Não posso esquecer que tínhamos lição de casa para fazer também, mesmo nas férias, mas eu fazia tudo na primeira semana e depois ficava livre. Também ensinava meus primos menores a escrever e uma recordação marcante foi um dia que meu avô segurou minha mão e disse que eu tinha mãos de professora. Ele cultuava as professoras, certamente porque não tinha estudo, só assinava o nome, como costumavam dizer naquela época. 
Até o final dos anos sessenta, o sítio não tinha luz elétrica, então, à noite, minha avó e tias faziam crochê com os lampiões acesos, meu tio contava causos e dormíamos bem cedo. Não sem antes fazermos muita algazarra. Como era muita criança, dividíamos um sofá cama na sala. E pedíamos a benção para os avós, tios e para a nona (bisavó). Depois eu rezava três aves-Maria, um Pai Nosso e a oração para o anjinho da guarda. Às vezes a nona cismava em rezar alto suas orações em italiano e a vó Amélia a repreendia porque os homens precisavam acordar de madrugada para ordenhar as vacas, A nona resmungava também e depois de algum tempo, finalmente todos podiam dormir. Isso acontecia porque a casa não tinha laje nem forro, então podia ser ouvido tudo de um cômodo para o outro. 
Quando eu acordava com o cantar dos galos e ainda era cedo para levantar, ficava olhando para as telhas envelhecidas pelo tempo e imaginando mil formas e desenhos. Chegado o fim das férias, meus pais vinham nos buscar para voltarmos à cidade de Salto, interior do Estado de São Paulo. Minha tia Inês nos levava de charrete até a rodoviária de Tietê para depois seguirmos de ônibus. Lembro de somente uma vez termos ido de trem e de ter ficado encantada com a paisagem, que passava lentamente pela janela do trem  em movimento.
Tenho tantas lembranças boas das férias passadas no sítio de meus avós, que se fosse escrevê-las todas, daria um livro.
               


Foto da casa do sítio dos meus avós, décadas após se mudarem. Tinha uma cerca e muitas plantas ornamentais do lado da casa. Na frente da foto está a janela do quarto dos avós; do lado, os quartos dos tios Candinho e Mariquinha, a porta da sala e o quarto das tias Inês e Alaíde. Atrás ficava o quarto da nona Cândida e do lado esquerdo a despensa e cozinha.

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